Há 10 meses
Identity
7/27/2010
hey, já está a filmar?
Ok, não vou mexer o lábio de cima
Vá, pega nas coisas delicadamente
Isso, tal como viste nos filmes,
Reproduz-te para o filme
Quem és tu? Senão um reflexo imaginado….
Passa a mão pelo cabelo!
Não, não, não passes agora
Olha pr’á câmara
Não, não olhes
Não é por medo, não olhes apenas
Vá, passa agora a mão no cabelo, pega na madeixa e solta-a da orelha…
hummm , quem és agora? Será que estás bem?
Gostava de trincar a sandes…
Não, se come à frente da câmara
Da última vez enchi muito a boca sem tão pouco reparar
Expira…
Inspira
Sorri…
Sai do silêncio
Pergunta coisas
Quantos minutos passaram?
humm, poucos.
Continua…tenta reconhecer-te no registo da figuração.
Ok, o que é que eu faço agora?
Sucederam-se diálogos e gestos
E continuei a fingir que era eu
Como que para agradar a Deus.
Ok, não vou mexer o lábio de cima
Vá, pega nas coisas delicadamente
Isso, tal como viste nos filmes,
Reproduz-te para o filme
Quem és tu? Senão um reflexo imaginado….
Passa a mão pelo cabelo!
Não, não, não passes agora
Olha pr’á câmara
Não, não olhes
Não é por medo, não olhes apenas
Vá, passa agora a mão no cabelo, pega na madeixa e solta-a da orelha…
hummm , quem és agora? Será que estás bem?
Gostava de trincar a sandes…
Não, se come à frente da câmara
Da última vez enchi muito a boca sem tão pouco reparar
Expira…
Inspira
Sorri…
Sai do silêncio
Pergunta coisas
Quantos minutos passaram?
humm, poucos.
Continua…tenta reconhecer-te no registo da figuração.
Ok, o que é que eu faço agora?
Sucederam-se diálogos e gestos
E continuei a fingir que era eu
Como que para agradar a Deus.
"that morning I wept..."
4/26/2010
.
.

"that morning I wept.
I wept because I loved the streets that took me away from him
and would lead me back to him.
I wept because the process by which I had become a woman was painful.
I wept because from now on I would weep less.
I wept because I had lost my pain
and I was not yet accustomed to it's absence..."
Anaïs Nin in Henry and June
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"that morning I wept.
I wept because I loved the streets that took me away from him
and would lead me back to him.
I wept because the process by which I had become a woman was painful.
I wept because from now on I would weep less.
I wept because I had lost my pain
and I was not yet accustomed to it's absence..."
Anaïs Nin in Henry and June
Mini-ode ao controle-freakismo
3/05/2010A intangibilidade do mundo reproduz-se no meu sangue
como um cancro.
Ninguém controla a chuva
ou os critérios da felicidade
por isso a culpa é uma invenção arcaica
e a vergonha um velho escafandro.
Deixei por aí convites
para quem quiser vir chorar a sua miséria em condição par
apenas para poder observar
assim como deus faz
essa inutil partilha da fragilidade e da impotencia.
Deixei por aí convites
para celebrar a ilusão de progresso
a ficção da palavra salvação
ou do termo remédio,
para viver essa união insólita
como todos os cancros
para ouvir as inuteis orações
com a qual se revolvem, involvem e resolvem os pios crentes do amor.
Diógenes, o cínico
2/12/2010(404-323a.C.)
Diógenes é assinalado, em muitas histórias da filosofia, como o filósofo que desprezou ostensivamente os poderosos e as convenções sociais. Nasceu em Sínope. Foi discípulo de Antístenes (c.444-365 a.C.), fundador da filosofia cínica. Como todos os cínicos desprezava as ideias gerais e as convenções sociais, negando a possibilidade da própria ciência. Diógenes ficou associado a diversos episódios que exprimem as suas ideias éticas, as únicas a que dava verdadeira importância. A única forma de vida aceitável seria a conforme à natureza, tudo o mais não passava de vento. Conta-se que Alexandre da Macedónia, o grande imperador da antiguidade, ao encontrá-lo lhe teria perguntado o que mais desejava. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre, fazia-lhe sombra. Diógenes, então olhando para o sol afirmou: "Não me tires o que não me podes dar!". Levando ao extremo esta atitude de desprezo pelas convenções sociais, Diógenes, tinha como casa um barril e vestia-se de trapos. Deambulava pela cidade com um lamparina acesa, mesmo de dia, afirmando a quem o interrogava que procurava "um verdadeiro homem". Aquele que vivia de acordo com a natureza.
in: http://afilosofia.no.sapo.pt/10diogenes.htm
Insolência.Letargia.Insolência.Letargia
2/12/2010
Sinto-me M A L amor...
Tapa-me o nariz..
preciso de não respirar por uns instantes,
Faz-me engolir comprimidos
e enfia-me á força no escuro.
.
Quero cheirar as paredes de terra e os cadáveres
e não sentir nada.
quero ouvir-vos rir e cantar lá em cima até me faltar o ar
quero saber que te banhas em todas as coisas más e impudicas
por dentro e por fora do corpo para imaginares que também me podes destruir.
Quero ficar cá em baixo tanto tempo quanto aquele que dure a tua vingança e o teu prazer.
compensa-me
deixa-me compensar-te
Incendeia-me os cabelos até que eu te dê reais razões para deixares de fumar
Sinto-me MAL amor...
Eu sou esta peça de carne, este animal que por não te pesar nos bolsos te pesa na vida.
e parasita a tua dignidade.
e faz o tempo parar até acordares velho e igualmente infeliz.
Eu sou imune a demasiadas coisas
por isso abandona-me, como eu mereço, no interior da terra
hoje preciso de me afogar.
Amanhã podes amar-me novamente.
Se m'arrancares de lá ainda vivo
Eu serei igualmente insolente.
Meios caminhos para chegar ti e a todas as outras coisas
2/10/2010-- Desculpa eu ser homem...
- Foi o que ela ouvio.-
Vindas de ti, todas as desculpas são aceites.
Ninguém nasce como quer.
Ninguém sabe sequer aquilo que quereria nascer.
Correm por aí demasiadas mentiras sobre valor e poder...
e há milhares de anos de desculpas em dívida...
Mas não para com ela
Ela vai crescer, e inventar palavras distintas para todas as distintas de formas de se fazer amor...
Esse infeliz termo anda há demasiados anos sob o jugo do sinónimo.
E tu és cumplice
da diferença solitária
e da frustração sistémica dos olhos dela.
Se não houver nada mais para destruir paredes
gastará o tempo que lhe resta a ler todos os livros
os bons
e os maus
todos,
mesmo todos,
pelo menos uma vez.
Obra Perfeita
1/05/2010Termino o meu castelo de cartas e ajoelho-me a rezar para que sopre o vento.
corro a toda a volta da mesa e o castelo não cai.
É uma obra magnifica,
á prova de tempestades
mas se não cair não posso fazer outro e sou um engenheiro sem causas.
O inferno é a redundância
mas foi de lá que vieram há 5 minutos dizer-me adeus por detrás de cabelos loiros.
fico grato.
Sento-me e contemplo a minha vontade de destruição.
há sempre muito a melhorar na obra pre-feita.
Passagens secretas
12/29/2009
O trabalho,
a política
o lazer
a religião
a ciência
todas essas instâncias
e também aquilo a que chamam "vida" nunca me consomem.
São pequenas bolas que circundo e observo de fora
para ver nelas a cara deformada
como refracções nos enfeites de natal.
Eu sou, dentro do espírito, um ser etéreo que trespassa moléculas
sou a energia sem matéria
a matéria sem contaminação
a metafisica
o quas'apogeu de relatividade
o julgar monótono da estratosfera
o anticristo e o fim das leis.
Mas ao mesmo tempo moro fisicamente dentro de algo que não vejo e não controlo
como as fobias ou como deus.
Existem as paredes do útero
sem frio, nem medo,
sem portas, nem janelas, nem pernas, nem cérebro, nem veneno nem poder ou decisão.
lá dentro,
como o deus cristão,
deitado na sombra do sétimo dia
Eu nunca me vou embora de ti.
ás vezes esgravato o picotado escrito na palavra comum
encho o peito com cinquenta litros de ar
e vou-me embora de nós.
Hoje
11/16/2009
Passei o dia mais longo da minha vida a olhar para ti
de dentro do cérebro para dentro do cérebro
nesse dia não gerei melatonina
não fechei os olhos
não descansei a carne.
Passei o dia mais longo da minha vida dentro de uma parede de osso
sem palavras para escrever
alimentado a gás
sem escape de pressão.
No dia mais longo da minha vida estive prestes a afogar-me.
se deixo de ver luz engulo com medo toda a água, os peixes e o lodo.
ainda não acordei
estou há horas sem máscara debaixo de água.
Já mal consigo respirar e o dia mais longo da minha vida ainda não acabou.
de dentro do cérebro para dentro do cérebro
nesse dia não gerei melatonina
não fechei os olhos
não descansei a carne.
Passei o dia mais longo da minha vida dentro de uma parede de osso
sem palavras para escrever
alimentado a gás
sem escape de pressão.
No dia mais longo da minha vida estive prestes a afogar-me.
se deixo de ver luz engulo com medo toda a água, os peixes e o lodo.
ainda não acordei
estou há horas sem máscara debaixo de água.
Já mal consigo respirar e o dia mais longo da minha vida ainda não acabou.
A água arrefece
11/11/2009
Olhei para a tua orelha.
Estava tanto calor que te escorria um fio de suor da ponta do cabelo em direcção ao queixo.
Eram três da tarde e já haviamos saltado de todas as pranchas.
Era sempre eu quem te desafiava e saltava primeiro.
tu saltavas sempre depois de mim.
Ás vezes acredito que sempre desejaste ser o irmão mais novo.
... menos uma
Todas as pranchas menos uma.
A mais alta.
Desafiei-te e tu acenaste um sim com a cabeça.
subimos os dois as escadas com os nossos corpos magros e queimados pelo sol
com os calções de banho pesados da água a dificultar a subida. Eu sabia que conseguia e acreditava que tal como das outras vezes
também ias saltar.
Olhei cá para baixo e saltei.
os meses passaram
Ainda estou a olhar-te lá de baixo.
Estava tanto calor que te escorria um fio de suor da ponta do cabelo em direcção ao queixo.
Eram três da tarde e já haviamos saltado de todas as pranchas.
Era sempre eu quem te desafiava e saltava primeiro.
tu saltavas sempre depois de mim.
Ás vezes acredito que sempre desejaste ser o irmão mais novo.
... menos uma
Todas as pranchas menos uma.
A mais alta.
Desafiei-te e tu acenaste um sim com a cabeça.
subimos os dois as escadas com os nossos corpos magros e queimados pelo sol
com os calções de banho pesados da água a dificultar a subida. Eu sabia que conseguia e acreditava que tal como das outras vezes
também ias saltar.
Olhei cá para baixo e saltei.
os meses passaram
Ainda estou a olhar-te lá de baixo.
O Mal menor
10/27/2009
Rodas a cabeça
180 graus
O teu corpo gira, acompanhando-a
Faz-se silencio
Rodo a cabeça 180 graus
Enfias-me escamas debaixo das unhas
com o teu silencio.
distam 20 centímetros do meu corpo ao teu
A distancia é o mal menor da solidão.
180 graus
O teu corpo gira, acompanhando-a
Faz-se silencio
Rodo a cabeça 180 graus
Enfias-me escamas debaixo das unhas
com o teu silencio.
distam 20 centímetros do meu corpo ao teu
A distancia é o mal menor da solidão.
A emoção executiva e a sobrevivencia
10/18/2009
Mais um domingo destruido por ti
ou pelos executantes da tua evolução.
Mais uma acusação proferida por mim
ou pelo executantes da minha evolução.
Mais umas muitas horas coexistência impossivel
com 3 minutos de gritos e 3 horas de silencio.
Mais cinquenta desculpas soluveis em desculpas
a borbulhar em cada um dos estomagos dentro dos corpos do avesso
Mais um crime cometido ás claras e ás cegas
mais uma pá de terra em cima da carne
por esta altura já se me não vêm as pernas
Ainda conseguirei respirar mais uns tempos no meio desse fumo que me lanças para a cara.
Eu sou um ser da natureza, dentro da sociedade industrial
Tal como tu eu não esqueço a fome em porra de banquete algum
os executantes da minha evolução vão-me deixando sem margem de manobra.
Todos os dias precisas de existir
Todos os dias precisas de roer a minha casca em busca de vermes.
Estou a ficar sem veios
por onde me corra seiva viva e elástica
nem raízes que me prendam ao chão.
estou a cristalizar a flexibilidade das minha células.
A infelicidade tem limites
Se os terramotos acontecerem todos os dias
deixo de fazer habitações
não trago mais um só tijolo para o lar
e durmo ao relento até morrer
ou então, respiro fundo, arrumo a trouxa e mudo de zona´
a morte está sempre garantida.
As horas passam
não sei quando me virás trazer um copo com enzimas
por agora fumaste e perdeste as mãos.
quando as recuperares espero realmente que me tragas um grande copo de enzimas
e que possamos recuperar as horas que faltam.
amanhã já é segunda e o ciclo repete-se de novo
mais 6 dias até Domingo.
ou pelos executantes da tua evolução.
Mais uma acusação proferida por mim
ou pelo executantes da minha evolução.
Mais umas muitas horas coexistência impossivel
com 3 minutos de gritos e 3 horas de silencio.
Mais cinquenta desculpas soluveis em desculpas
a borbulhar em cada um dos estomagos dentro dos corpos do avesso
Mais um crime cometido ás claras e ás cegas
mais uma pá de terra em cima da carne
por esta altura já se me não vêm as pernas
Ainda conseguirei respirar mais uns tempos no meio desse fumo que me lanças para a cara.
Eu sou um ser da natureza, dentro da sociedade industrial
Tal como tu eu não esqueço a fome em porra de banquete algum
os executantes da minha evolução vão-me deixando sem margem de manobra.
Todos os dias precisas de existir
Todos os dias precisas de roer a minha casca em busca de vermes.
Estou a ficar sem veios
por onde me corra seiva viva e elástica
nem raízes que me prendam ao chão.
estou a cristalizar a flexibilidade das minha células.
A infelicidade tem limites
Se os terramotos acontecerem todos os dias
deixo de fazer habitações
não trago mais um só tijolo para o lar
e durmo ao relento até morrer
ou então, respiro fundo, arrumo a trouxa e mudo de zona´
a morte está sempre garantida.
As horas passam
não sei quando me virás trazer um copo com enzimas
por agora fumaste e perdeste as mãos.
quando as recuperares espero realmente que me tragas um grande copo de enzimas
e que possamos recuperar as horas que faltam.
amanhã já é segunda e o ciclo repete-se de novo
mais 6 dias até Domingo.
Suicídio colectivo
9/29/2009
Estamos vivos,
ainda
O meu coração bate.
Temo que a qualquer hora um de nós deixe de respirar.
A tua maquina ainda faz bip
A minha máquina ainda faz bip
Não há doutores na sala
mas há ar e eu já não asfixio.
Confirma-se:
O suicidio colectivo não resulta.
O meu problema é o teu problema.
se eu deixar de respirar sabes que morri
eu respiro sempre
se nunca me matares eu respiro sempre
hoje descobri
é o unico acordo realmente eterno.
ainda
O meu coração bate.
Temo que a qualquer hora um de nós deixe de respirar.
A tua maquina ainda faz bip
A minha máquina ainda faz bip
Não há doutores na sala
mas há ar e eu já não asfixio.
Confirma-se:
O suicidio colectivo não resulta.
O meu problema é o teu problema.
se eu deixar de respirar sabes que morri
eu respiro sempre
se nunca me matares eu respiro sempre
hoje descobri
é o unico acordo realmente eterno.
9/25/2009
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comentários
O drama humano é a condenação a uma existência reclusa sem a consciência da reclusão.
Reprodução do século XXI
9/15/2009
O papel de parede é novo, ainda sem nódoas.
Todos os seus familiares se transformaram em objectos domésticos,
particularmente a mãe:
Um ecrã grande onde debatem políticos de segunda.
.
Nunca existiram irmãos.
Os animais domésticos são cadáveres na cozinha.
Envolta em poucos lúmen a criança masca plasticina.
A casa está fria.
Os políticos versam sobre vida de todos.
A criança esfrega as papilas na pasta
sente o misto de barro e plástico
Orienta a face para a tv
e faz caretas instintivas
Outputs de informação obsoleta e vestigial.
Todos os seus familiares se transformaram em objectos domésticos,
particularmente a mãe:
Um ecrã grande onde debatem políticos de segunda.
.
Nunca existiram irmãos.
Os animais domésticos são cadáveres na cozinha.
Envolta em poucos lúmen a criança masca plasticina.
A casa está fria.
Os políticos versam sobre vida de todos.
A criança esfrega as papilas na pasta
sente o misto de barro e plástico
Orienta a face para a tv
e faz caretas instintivas
Outputs de informação obsoleta e vestigial.
ENTREVISTA A JOSÉ GABRIEL PEREIRA BASTOS
8/31/2009
(Antropólogo - FCSH/UNL)
Que função desempenha o sonho no ser humano?
Eu diria que o sonho é aquilo que é mais especificamente humano, mesmo que para isso eu tenha de reduzi-lo a uma categoria de acto que recusa a realidade. Portanto, o sonho é a actividade do espírito que nos quer libertar do fracasso, da frustração, da decepção, da impotência, e que mostra que nós somos um animal inconformista, um animal revoltado. Poderíamos usar várias expressões filosóficas para descrever o humano mas não o hommo sapiens sapiens, que é isso que não somos. Teorias como o empirismo, o racionalismo, o pragmatismo que se baseiam na apologia do progresso, da razão, da ordem negam isso, As teorias românticas, como o neo-romantismo que hoje é transportado pela psicanálise e pelo marxismo, são teorias do Homem dramático, do Homem revoltado, do Homem inconformado com a exploração do Homem pelo Homem, da mulher pelo homem, com a injustiça, com a humilhação, com o racismo, com o preconceito, etc; são teorias do Homem inconformado com o seu próprio recalcamento, ou seja, com a impossibilidade de sentir, de viver, de pensar, de ser agente, de ser autêntico, de tér uma identidade pessoal, de correr riscos em nome de si próprio... Deste modo, o marxismo e a psicanálise sãó, para mim, as correntes modernas que continuam a exprimir a problemática do Homem inconformado. Foi nessa acepção que Edgar Morin propôs que se alterasse a designação de homo sapiens sapiens para homo sapiens demens. O sonho é o demens e é o demens que é a parte realmente humana do Homem, é o acto louco. Louco quer dizer que nós temos que viver fora do real porque temos uma alma tão sensível, tão vulnerável, tão traumatizável face a realidades que podem estar tão fora de nós como a morte, ou biológicas como a doença, o envelhecimento, a decrepitude, ou de outras coisas que vêm das relações inter-humanas: o racismo, a opressão, crianças a morrer à fome, genocídio, tortura, actos terríveis que os Homens podem fazer alguns muito visivelmente terríveis, outros disfarçadamente terríveis, organizadamente terríveis que magoam tanto que nós desejaríamos que o mundo fosse qualquer coisa que não é. Posto isto, o problema é que nós vivemos entré o que há e não gostamos e o que não há e queríamos que fosse, ou seja, temos ideais, protestamos contra a realidade e inventamos outra porque queremos fugir à angústia. E o sonho é a forma que os humanos têm de vencer a adversidade.
Poderíamos dizer, então, que “o Homem é o lobo do Homem”, que é intrinsecamente mau, e que o sonho serviria como um escape à monstruosidade dos seus próprios actos?
Eu não diria isso. Diria que essa dimensão existe, e não é bom negá-la, diria que o Homem é um animal em sofrimento, em ferida aberta, que gostaria de sarar as suas feridas através do amor, do abraço, da família, da arte… somos um animal ferido que gostava de se curar, mas quando procura curar-se magoa e é magoado novamente. O Homem é um animal à procura de salvação, à procura de paz, de realização; mas não temos salvação possível. Na minha perspectiva, a vida do Homem é estruturalmente dramática e problemática. Somos a única espécie problemática que se pode auto destruir; exactamente porque se quer salvar.
Se o sonho é, como disse Frédéric Gaussen, “a expressão mais secreta e mais impúdica de nós próprios”, se ele é de tal forma individual e subjectivo, poder-se-á fazer uma análise dele com exactidão científica? No fundo, pode a psicanálise aspirar a ser uma ciência?
Eu poria a questão ao contrário, perguntaria se alguma disciplina, com excepção da psicanálise, pode fazer uma análise cientifica do sonho. Eu diria que a biologia não pode, a neurobiologia cerebral também não e que eu saiba nenhuma outra das restantes escolas psicológicas o fazem. A psicanálise é uma disciplina estrutural-dinâmica, que parte de observações sobre indivíduos para criar um modelo da vida mental, um modelo com dimensões colectivas, políticas, históricas, económicas, eróticas, agressivas, militares, artísticas, enfim, todas as dimensões, sem excepção. O que é necessário saber é com que modelo é que pensamos a pluralidade de acções humanas, desde a tortura ao genocídio, à arte, ao tocar violino, ao fazer amor, ao casar, ao ir para padre, tudo o que o Homem pode fazer em qualquer parte do mundo. Portanto, o que Freud criou é uma antropologia geral, distinta da antropologia geral científica de Marx. E, para mim, o ideal seria conjugar Freud e Marx, encontrar o encaixe justo entre essas duas teorias, e então teríamos uma teoria praticamente completa, uma teoria estrutural-dinâmica da História, da dramaticidade, etc. Mas o que é que eu quero dizer com uma teoria estrutural-dinâmica? Quero dizer que, neste caso, estamos a dizer que a alma é estruturada e que existe uma articulação entre a organização da mente e a organização do mundo. Aqui damos ênfase ao facto de a mente, por sua vez, estar articulada com o soma, com o organismo, com as necessidades orgânicas, com os impulsos agressivos, com os impulsos eróticos,com a fome e com outras sensibilidades mais. Portanto, o que se trata de obter é uma teoria da articulação estrutural-dinâmica entre o soma, o psiquismo e a sociedade e entre outras actividades ainda como as artísticas e as religiosas. Esta teoria geral está em Freud; certo ou errado, ele construiu um modelo. Agora eu diria que ciência, por definição, é um acto da vida mental que propõe modelos sobre o real que podem ser contrapostos a outros modelos. Dito de outra maneira, para mim, o espaço da ciência é um espaço de proposta, de um mercado mental de modelos em que o Freud entra e propõe o seu modelo, e eu estou à espera de que outras pessoas entrem e proponham modelos que me permitam dizer “deito fora o de Freud e fico com o do senhor Silva”. Uma segunda característica da ciência é que ela se contrapõe sempre à visão ideológica do mundo, à visão popular e à visão imediata e perceptiva do real. E cada vez que alguém produz ciência o mundo levanta-se contra ele — aconteceu com Galileu, Kepler, Darwin, Freud, Marx... Porquê? Porque, exactamente, o desejo mais genérico dos Homens é viverem em estado de ilusão. Os Homens precisam de compensações, o mundo é duro para com eles, os Homens são um animal que protesta, não querem, inventam ilusões, compensações drogas, álcool, raves, rock in rio’s, sexualidade, garotas, cama, discotecas, futebol, televisão, quinta das celebridades, polifica-espectáculo, Santana Lopes, missas, paróquias imensas distracções para ver se não dói tanto. Portanto, quando alguém propõe uma visão científica do real em Ciências Sociais essa visão é sempre chocante. Nesse sentido eu diria que, claramente, temos todos os indicadores da cientificidade da psicanálise e temos todos os indicadores da alienação de disciplinas como a psiquiatria, que se dizem científicas mas não o são. Porque servem apenas para criar um efeito de Lexotan [análogo ao Prozac ou Valium, contra a ansiedade, que produz um efeito tranquilizador em quem o ingere pelo qual se diz que 3% das pessoas são malucas e tu és racional. Claro que isto é óptimo para os restantes 97%...
Acha que a religião pode ser encarada como um sonho ou um delírio colectivo? Como um “ópio do povo” que, inserindo o Homem numa estrutura simulacral e ilusória, concede-lhe o escape da dura realidade?
Marx, nesse texto, vai ainda mais longe e afirma que o Homem não tem realidade. E nãõ tem realidade porque os dominadores, os exploradores retiraram a realidade ao Homem proletário, para que ele não se revoltasse. Ora, eu tenho todos os dados como antropólogo para dizer que Marx estava errado e que essas problemáticas não têm apenas que ver com sociedades com Estado nem com sociedades capitalistas. Porque o que é facto é que sociedades de caçadores-recolectores de cinquenta pessoas no meio da selva têm tudo isso e, no entanto, não têm judaico-cristianismo, não tiveram igrejas católicas, não tiveram repressão institucional, etc. As trevas não são trevas; pelo contrário, são luzes. Dito de outra maneira, o Homem gosta muito de ver luzes em caleidoscópios e de inventar caleidoscópios e de ver luzes bonitas. As religiões são luzes bonitas que também servem para certas partes mais angustiadas da humanidade dominarem outras partes que lhes causam angústia. Quando se vai ver quem são essas partes, os angustiados são os Homens de uma certa idade, e as pessoas que lhes causam angústia são as suas mulheres e filhos, A religião também serve para os homens angustiados e fragilizados criarem uma estrutura de dominação sobre as suas próprias mulheres, que podem estar a dormir com outros homens, sobre os seus filhos que lhes podem desobedecer os homens estão a envelhecer enquanto os filhos estão cheios de força, uns estão na fase de abertura outros na fase de fechamento e decrepitude. A religião foi, assim, (e há provas disso) inventada pelos homens mais velhos, ao aperceberem-se de que, através dela, podiam dominar os outros homens.
Isso poder-nos-ia levar à questão do falocentrismo e da dominação que ele vem exercendo em toda a nossa história ocidental.
Isso não tem que ver com o falos, tem que ver com a fatta dele (risos). Os homens velhos não têm fatos, têm o pénis dependurado e frouxo e as mulheres não querem dormir com eles, querem dormir com equivalentes aos filhos. A criatividade humana é uma resposta à vulnerabilidade identitária e a angústia que ela provoca nos sujeitos que a têm. Os sujeitos mais vulneraveis são os homens. Todas as pessoas que querem o poder quanto mais o querem mais vulneráveis se tornam. O poder é uma posição instável e falsa.
Francis Fukuyama afirmou que o “fim da história” incluiria um fim das ideologias. Ainda há espaço para a utopia, para o sonho utópico, num mundo cada vez mais a-ideológico, cada vez mais embrenhado na “era do vazio”?
Acabas de demonstrá-lo. O que o Fukuyama nos está a propor é o sonho dele, sem qualquer realidade dentro. O que ele está a propor é uma utopia, não tem qualquer realidade dentro e não vai acontecer. O que vai acontecer, por razões estruturais-dinâmicas, é que o Homem, sendo um ser ferido, vulnerável, dramático, problemático, sempre porá em perigo ele próprio e os seus semelhantes, porque está em guerra consigo próprio e com os outros. Portanto o que teremos nunca será a paz por mil anos, só um Napoleão ou um Hegel diria uma coisa dessas, e o Fukuyama é apenas mais um, mas debruçando-se sobre a globalização. Os Homens estarão sempre a organizar novos delírios, novos grupos, novas identidades e a contrapô-las a outras fazendo guerras, ensaios de dominação e tornando-se vulneráveis através disso, e recomeçando um ciclo entre gerações, entre sexos, grupos, etnicidades, classes sociais, entre benfiquistas e sportinguistas… querendo sempre chegar a qualquer coisa onde não chegarão e andando à paulada, ou com medo de a levar, porque outros não gostam da sua identidade. Dito de outra maneira, uma coisa incontornável é que estás sozinho. O Homem é o único animal verdadeiramente sozinho, e nunca deixa de estar sozinho, nem na cama. Estás condenado à solidão e a tua alma sofre com isso. Platão falou disso quando falou do ser primordial, que era redondo, tinha quatro pernas e quatro braços e depois alguém o cortou ao meio e as duas metades passaram a vida a tentar reencontrar se para criar o círculo perfeito, a totalidade. Isso em psicanálise é chamado “princípio da conservação do psiquísmo”, ou seja, tu conservas-te na tua vida mental comparando todos os estados pelos quais passaste, e como alguns estados pelos quais passaste são melhores do que a tua actualidade, tu tens nostalgia do teu paraíso perdido que foi o útero da tua mãe, o ninho que ela te deu, e a ilusão de que eras o centro do mundo. As mães dão aos bebés a ilusão de que eles são o centro do mundo, e isso torna-nos egocêntricos, etnocêntricos. Desta forma, mesmo Freud, mesmo o maior teórico continua a ser um sujeito de ilusões. A vida psíquica é estruturada de tal maneira que tu tens vários sujeitos dentro de ti, e o sujeito que age na inveja, o sujeito que age no futebol, na política, é o sujeito da ilusão, é o sujeito do sonho. Há uma ânsia de sonho, há uma ânsia de encontrar, há uma esperança. Eu penso que mesmo a pessoa mais lúcida, lá no último canto da cabeça, o que ela tem é esperança, o que ela tem é sonho. Esperança da redenção, da salvação, da plenitude, do encontro. O que se exprime no sonho é o sujeito dramático, em busca não consciente da realização disfarçada de desejos recalcados. O que se transmite no sonho é a revolta, o que o sonho faz é a desobediência em busca da salvação, ou seja, é o inverso da ideologia que afirma que é na obediência que está a salvação. Ideologia cristã, onde se preconiza obediência ao plano de Deus; ou ideologia burguesa, baseada numa obediência ao Estado: pagar os impostos, cumprir os horários, ser metódico e pontual. O que a alma diz no sonho é “não me impedirão de procurar a salvação”.
O sonho pode ser, assim, perigoso, na medida em que vai contra a imposição de modelos comportamentais rígidos, porque vai contra o controlo político do Homem. Perigoso porque liberta.
Se um dia chegarmos à situação em que os biólogos nos impedirem de sonhar, o controlo político da Humanidade está garantido. Só que as últimas experiências biológicas provam que um Homem que não sonha enlouquece. Dito de outra forma, para se levar os Homens a obedecerem incondicionalmente ao Estado será necessário enlouquecer a humanidade. Criar-se-ia um mundo de psicóticos e não um mundo de cidadãos.
Um mundo como o de “1984” de Orwell.
Exactamente.
[Entervista por Paulo Barcelos. Originalmente publicado no “Nova em Folha” – Jornal da Associação de Estudantes da FCSH, #36, Novembro de 2004]
http://rebeldia2.blogspot.com/2005/03/entrevista-jos-gabriel-pereira-bastos.html
Que função desempenha o sonho no ser humano?
Eu diria que o sonho é aquilo que é mais especificamente humano, mesmo que para isso eu tenha de reduzi-lo a uma categoria de acto que recusa a realidade. Portanto, o sonho é a actividade do espírito que nos quer libertar do fracasso, da frustração, da decepção, da impotência, e que mostra que nós somos um animal inconformista, um animal revoltado. Poderíamos usar várias expressões filosóficas para descrever o humano mas não o hommo sapiens sapiens, que é isso que não somos. Teorias como o empirismo, o racionalismo, o pragmatismo que se baseiam na apologia do progresso, da razão, da ordem negam isso, As teorias românticas, como o neo-romantismo que hoje é transportado pela psicanálise e pelo marxismo, são teorias do Homem dramático, do Homem revoltado, do Homem inconformado com a exploração do Homem pelo Homem, da mulher pelo homem, com a injustiça, com a humilhação, com o racismo, com o preconceito, etc; são teorias do Homem inconformado com o seu próprio recalcamento, ou seja, com a impossibilidade de sentir, de viver, de pensar, de ser agente, de ser autêntico, de tér uma identidade pessoal, de correr riscos em nome de si próprio... Deste modo, o marxismo e a psicanálise sãó, para mim, as correntes modernas que continuam a exprimir a problemática do Homem inconformado. Foi nessa acepção que Edgar Morin propôs que se alterasse a designação de homo sapiens sapiens para homo sapiens demens. O sonho é o demens e é o demens que é a parte realmente humana do Homem, é o acto louco. Louco quer dizer que nós temos que viver fora do real porque temos uma alma tão sensível, tão vulnerável, tão traumatizável face a realidades que podem estar tão fora de nós como a morte, ou biológicas como a doença, o envelhecimento, a decrepitude, ou de outras coisas que vêm das relações inter-humanas: o racismo, a opressão, crianças a morrer à fome, genocídio, tortura, actos terríveis que os Homens podem fazer alguns muito visivelmente terríveis, outros disfarçadamente terríveis, organizadamente terríveis que magoam tanto que nós desejaríamos que o mundo fosse qualquer coisa que não é. Posto isto, o problema é que nós vivemos entré o que há e não gostamos e o que não há e queríamos que fosse, ou seja, temos ideais, protestamos contra a realidade e inventamos outra porque queremos fugir à angústia. E o sonho é a forma que os humanos têm de vencer a adversidade.
Poderíamos dizer, então, que “o Homem é o lobo do Homem”, que é intrinsecamente mau, e que o sonho serviria como um escape à monstruosidade dos seus próprios actos?
Eu não diria isso. Diria que essa dimensão existe, e não é bom negá-la, diria que o Homem é um animal em sofrimento, em ferida aberta, que gostaria de sarar as suas feridas através do amor, do abraço, da família, da arte… somos um animal ferido que gostava de se curar, mas quando procura curar-se magoa e é magoado novamente. O Homem é um animal à procura de salvação, à procura de paz, de realização; mas não temos salvação possível. Na minha perspectiva, a vida do Homem é estruturalmente dramática e problemática. Somos a única espécie problemática que se pode auto destruir; exactamente porque se quer salvar.
Se o sonho é, como disse Frédéric Gaussen, “a expressão mais secreta e mais impúdica de nós próprios”, se ele é de tal forma individual e subjectivo, poder-se-á fazer uma análise dele com exactidão científica? No fundo, pode a psicanálise aspirar a ser uma ciência?
Eu poria a questão ao contrário, perguntaria se alguma disciplina, com excepção da psicanálise, pode fazer uma análise cientifica do sonho. Eu diria que a biologia não pode, a neurobiologia cerebral também não e que eu saiba nenhuma outra das restantes escolas psicológicas o fazem. A psicanálise é uma disciplina estrutural-dinâmica, que parte de observações sobre indivíduos para criar um modelo da vida mental, um modelo com dimensões colectivas, políticas, históricas, económicas, eróticas, agressivas, militares, artísticas, enfim, todas as dimensões, sem excepção. O que é necessário saber é com que modelo é que pensamos a pluralidade de acções humanas, desde a tortura ao genocídio, à arte, ao tocar violino, ao fazer amor, ao casar, ao ir para padre, tudo o que o Homem pode fazer em qualquer parte do mundo. Portanto, o que Freud criou é uma antropologia geral, distinta da antropologia geral científica de Marx. E, para mim, o ideal seria conjugar Freud e Marx, encontrar o encaixe justo entre essas duas teorias, e então teríamos uma teoria praticamente completa, uma teoria estrutural-dinâmica da História, da dramaticidade, etc. Mas o que é que eu quero dizer com uma teoria estrutural-dinâmica? Quero dizer que, neste caso, estamos a dizer que a alma é estruturada e que existe uma articulação entre a organização da mente e a organização do mundo. Aqui damos ênfase ao facto de a mente, por sua vez, estar articulada com o soma, com o organismo, com as necessidades orgânicas, com os impulsos agressivos, com os impulsos eróticos,com a fome e com outras sensibilidades mais. Portanto, o que se trata de obter é uma teoria da articulação estrutural-dinâmica entre o soma, o psiquismo e a sociedade e entre outras actividades ainda como as artísticas e as religiosas. Esta teoria geral está em Freud; certo ou errado, ele construiu um modelo. Agora eu diria que ciência, por definição, é um acto da vida mental que propõe modelos sobre o real que podem ser contrapostos a outros modelos. Dito de outra maneira, para mim, o espaço da ciência é um espaço de proposta, de um mercado mental de modelos em que o Freud entra e propõe o seu modelo, e eu estou à espera de que outras pessoas entrem e proponham modelos que me permitam dizer “deito fora o de Freud e fico com o do senhor Silva”. Uma segunda característica da ciência é que ela se contrapõe sempre à visão ideológica do mundo, à visão popular e à visão imediata e perceptiva do real. E cada vez que alguém produz ciência o mundo levanta-se contra ele — aconteceu com Galileu, Kepler, Darwin, Freud, Marx... Porquê? Porque, exactamente, o desejo mais genérico dos Homens é viverem em estado de ilusão. Os Homens precisam de compensações, o mundo é duro para com eles, os Homens são um animal que protesta, não querem, inventam ilusões, compensações drogas, álcool, raves, rock in rio’s, sexualidade, garotas, cama, discotecas, futebol, televisão, quinta das celebridades, polifica-espectáculo, Santana Lopes, missas, paróquias imensas distracções para ver se não dói tanto. Portanto, quando alguém propõe uma visão científica do real em Ciências Sociais essa visão é sempre chocante. Nesse sentido eu diria que, claramente, temos todos os indicadores da cientificidade da psicanálise e temos todos os indicadores da alienação de disciplinas como a psiquiatria, que se dizem científicas mas não o são. Porque servem apenas para criar um efeito de Lexotan [análogo ao Prozac ou Valium, contra a ansiedade, que produz um efeito tranquilizador em quem o ingere pelo qual se diz que 3% das pessoas são malucas e tu és racional. Claro que isto é óptimo para os restantes 97%...
Acha que a religião pode ser encarada como um sonho ou um delírio colectivo? Como um “ópio do povo” que, inserindo o Homem numa estrutura simulacral e ilusória, concede-lhe o escape da dura realidade?
Marx, nesse texto, vai ainda mais longe e afirma que o Homem não tem realidade. E nãõ tem realidade porque os dominadores, os exploradores retiraram a realidade ao Homem proletário, para que ele não se revoltasse. Ora, eu tenho todos os dados como antropólogo para dizer que Marx estava errado e que essas problemáticas não têm apenas que ver com sociedades com Estado nem com sociedades capitalistas. Porque o que é facto é que sociedades de caçadores-recolectores de cinquenta pessoas no meio da selva têm tudo isso e, no entanto, não têm judaico-cristianismo, não tiveram igrejas católicas, não tiveram repressão institucional, etc. As trevas não são trevas; pelo contrário, são luzes. Dito de outra maneira, o Homem gosta muito de ver luzes em caleidoscópios e de inventar caleidoscópios e de ver luzes bonitas. As religiões são luzes bonitas que também servem para certas partes mais angustiadas da humanidade dominarem outras partes que lhes causam angústia. Quando se vai ver quem são essas partes, os angustiados são os Homens de uma certa idade, e as pessoas que lhes causam angústia são as suas mulheres e filhos, A religião também serve para os homens angustiados e fragilizados criarem uma estrutura de dominação sobre as suas próprias mulheres, que podem estar a dormir com outros homens, sobre os seus filhos que lhes podem desobedecer os homens estão a envelhecer enquanto os filhos estão cheios de força, uns estão na fase de abertura outros na fase de fechamento e decrepitude. A religião foi, assim, (e há provas disso) inventada pelos homens mais velhos, ao aperceberem-se de que, através dela, podiam dominar os outros homens.
Isso poder-nos-ia levar à questão do falocentrismo e da dominação que ele vem exercendo em toda a nossa história ocidental.
Isso não tem que ver com o falos, tem que ver com a fatta dele (risos). Os homens velhos não têm fatos, têm o pénis dependurado e frouxo e as mulheres não querem dormir com eles, querem dormir com equivalentes aos filhos. A criatividade humana é uma resposta à vulnerabilidade identitária e a angústia que ela provoca nos sujeitos que a têm. Os sujeitos mais vulneraveis são os homens. Todas as pessoas que querem o poder quanto mais o querem mais vulneráveis se tornam. O poder é uma posição instável e falsa.
Francis Fukuyama afirmou que o “fim da história” incluiria um fim das ideologias. Ainda há espaço para a utopia, para o sonho utópico, num mundo cada vez mais a-ideológico, cada vez mais embrenhado na “era do vazio”?
Acabas de demonstrá-lo. O que o Fukuyama nos está a propor é o sonho dele, sem qualquer realidade dentro. O que ele está a propor é uma utopia, não tem qualquer realidade dentro e não vai acontecer. O que vai acontecer, por razões estruturais-dinâmicas, é que o Homem, sendo um ser ferido, vulnerável, dramático, problemático, sempre porá em perigo ele próprio e os seus semelhantes, porque está em guerra consigo próprio e com os outros. Portanto o que teremos nunca será a paz por mil anos, só um Napoleão ou um Hegel diria uma coisa dessas, e o Fukuyama é apenas mais um, mas debruçando-se sobre a globalização. Os Homens estarão sempre a organizar novos delírios, novos grupos, novas identidades e a contrapô-las a outras fazendo guerras, ensaios de dominação e tornando-se vulneráveis através disso, e recomeçando um ciclo entre gerações, entre sexos, grupos, etnicidades, classes sociais, entre benfiquistas e sportinguistas… querendo sempre chegar a qualquer coisa onde não chegarão e andando à paulada, ou com medo de a levar, porque outros não gostam da sua identidade. Dito de outra maneira, uma coisa incontornável é que estás sozinho. O Homem é o único animal verdadeiramente sozinho, e nunca deixa de estar sozinho, nem na cama. Estás condenado à solidão e a tua alma sofre com isso. Platão falou disso quando falou do ser primordial, que era redondo, tinha quatro pernas e quatro braços e depois alguém o cortou ao meio e as duas metades passaram a vida a tentar reencontrar se para criar o círculo perfeito, a totalidade. Isso em psicanálise é chamado “princípio da conservação do psiquísmo”, ou seja, tu conservas-te na tua vida mental comparando todos os estados pelos quais passaste, e como alguns estados pelos quais passaste são melhores do que a tua actualidade, tu tens nostalgia do teu paraíso perdido que foi o útero da tua mãe, o ninho que ela te deu, e a ilusão de que eras o centro do mundo. As mães dão aos bebés a ilusão de que eles são o centro do mundo, e isso torna-nos egocêntricos, etnocêntricos. Desta forma, mesmo Freud, mesmo o maior teórico continua a ser um sujeito de ilusões. A vida psíquica é estruturada de tal maneira que tu tens vários sujeitos dentro de ti, e o sujeito que age na inveja, o sujeito que age no futebol, na política, é o sujeito da ilusão, é o sujeito do sonho. Há uma ânsia de sonho, há uma ânsia de encontrar, há uma esperança. Eu penso que mesmo a pessoa mais lúcida, lá no último canto da cabeça, o que ela tem é esperança, o que ela tem é sonho. Esperança da redenção, da salvação, da plenitude, do encontro. O que se exprime no sonho é o sujeito dramático, em busca não consciente da realização disfarçada de desejos recalcados. O que se transmite no sonho é a revolta, o que o sonho faz é a desobediência em busca da salvação, ou seja, é o inverso da ideologia que afirma que é na obediência que está a salvação. Ideologia cristã, onde se preconiza obediência ao plano de Deus; ou ideologia burguesa, baseada numa obediência ao Estado: pagar os impostos, cumprir os horários, ser metódico e pontual. O que a alma diz no sonho é “não me impedirão de procurar a salvação”.
O sonho pode ser, assim, perigoso, na medida em que vai contra a imposição de modelos comportamentais rígidos, porque vai contra o controlo político do Homem. Perigoso porque liberta.
Se um dia chegarmos à situação em que os biólogos nos impedirem de sonhar, o controlo político da Humanidade está garantido. Só que as últimas experiências biológicas provam que um Homem que não sonha enlouquece. Dito de outra forma, para se levar os Homens a obedecerem incondicionalmente ao Estado será necessário enlouquecer a humanidade. Criar-se-ia um mundo de psicóticos e não um mundo de cidadãos.
Um mundo como o de “1984” de Orwell.
Exactamente.
[Entervista por Paulo Barcelos. Originalmente publicado no “Nova em Folha” – Jornal da Associação de Estudantes da FCSH, #36, Novembro de 2004]
http://rebeldia2.blogspot.com/2005/03/entrevista-jos-gabriel-pereira-bastos.html
Winning the Game
8/18/2009
Zero, a zero, a zero, vai o jogo recomeçar
Já se sente o desespero, precisamos de empatar
Azeda, azeda, azeda, a derrota é de amargar
Zero a zero é labareda, não perdemos sem ganhar
Zero a zero, grão a grão, de nada em nada
Vais erguendo a barricada que há um zero a defender
E são ferrolhos, tira-olhos, tira-teimas,
Correrias, saltos queimas que há um zero a perceber
Há zero mães, zero alarmes, cima-abaixo
Jogo branco e o berbicacho e risadas, volta atrás
Há um vazio revirando regelando,
Passa o tempo sendo brando, fazendo zero, tanto faz
Há zero a zero, há cem a cem
Com zero a zero, vai tudo bem
Há zero a zero, há cem a cem
Com zero a zero, vai tudo bem
Depois, depois, depois, vai dar muito que falar
Nulidades ou heróis, todos têm que velar
Zero, a zero, a zero, há-de o jogo terminar
Pra’ dizer sem exagero, “foi a zero, não há azar”
Zero a zero, repartido, por outro zero
Já não espero e acelero que se caio também cai
A zero à hora, vou de roda e recupero
Quero dar a volta ao zero para ver aonde vai
Com mais encores fazem zero apologia
Muitos zeros é mania, zero a zero é pequenez
Duas noitadas, são as lógicas maradas
Desempate ou desempatas, empatamos outra vez
Há zero a zero, há cem a cem
Com zero a zero, vai tudo bem
Há zero a zero, há cem a cem
Com zero a zero, vai tudo bem
The Vicious Five
Tributo a Carlos Paião
Já se sente o desespero, precisamos de empatar
Azeda, azeda, azeda, a derrota é de amargar
Zero a zero é labareda, não perdemos sem ganhar
Zero a zero, grão a grão, de nada em nada
Vais erguendo a barricada que há um zero a defender
E são ferrolhos, tira-olhos, tira-teimas,
Correrias, saltos queimas que há um zero a perceber
Há zero mães, zero alarmes, cima-abaixo
Jogo branco e o berbicacho e risadas, volta atrás
Há um vazio revirando regelando,
Passa o tempo sendo brando, fazendo zero, tanto faz
Há zero a zero, há cem a cem
Com zero a zero, vai tudo bem
Há zero a zero, há cem a cem
Com zero a zero, vai tudo bem
Depois, depois, depois, vai dar muito que falar
Nulidades ou heróis, todos têm que velar
Zero, a zero, a zero, há-de o jogo terminar
Pra’ dizer sem exagero, “foi a zero, não há azar”
Zero a zero, repartido, por outro zero
Já não espero e acelero que se caio também cai
A zero à hora, vou de roda e recupero
Quero dar a volta ao zero para ver aonde vai
Com mais encores fazem zero apologia
Muitos zeros é mania, zero a zero é pequenez
Duas noitadas, são as lógicas maradas
Desempate ou desempatas, empatamos outra vez
Há zero a zero, há cem a cem
Com zero a zero, vai tudo bem
Há zero a zero, há cem a cem
Com zero a zero, vai tudo bem
The Vicious Five
Tributo a Carlos Paião
Diagnostico e terapia
8/05/2009
Um algoritmo random testa a espécie numa caverna climatizada
REPORT: Espécie doente
ORIGEM DO PROBLEMA: produto secundário da adaptação
DIAGNÓSE FUNDAMENTAL: auto-canibalismo psico-somático inter-dimensional
CONDICIONANTES: sobriedade em função da ordem sistémica e supra-individual e supra-gregária com paradoxo egóico
CONSEQUÊNCIA: Ebriez de vodka destilada dos impulsos sacrificados com pouco estimulo racional
ANAMNESE: medo, conflito, símbolo e moral
TERAPIA RECOMENDADA:
a) eliminação de estruturantes danosos da cultura com vista a erradicar contradições
d) Reedificar conceitos
c) profilaxia de clarividência pré-acção
d) Reformulação de meios e métodos de transmissão de conceitos
UTOPIA: Eliminação da doença e construção da plenitude individual
DISTOPIA 2080: ?
REPORT: Espécie doente
ORIGEM DO PROBLEMA: produto secundário da adaptação
DIAGNÓSE FUNDAMENTAL: auto-canibalismo psico-somático inter-dimensional
CONDICIONANTES: sobriedade em função da ordem sistémica e supra-individual e supra-gregária com paradoxo egóico
CONSEQUÊNCIA: Ebriez de vodka destilada dos impulsos sacrificados com pouco estimulo racional
ANAMNESE: medo, conflito, símbolo e moral
TERAPIA RECOMENDADA:
a) eliminação de estruturantes danosos da cultura com vista a erradicar contradições
d) Reedificar conceitos
c) profilaxia de clarividência pré-acção
d) Reformulação de meios e métodos de transmissão de conceitos
UTOPIA: Eliminação da doença e construção da plenitude individual
DISTOPIA 2080: ?
